Micos de Imigrante: “Conversa doida da miséria”
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Pra não dizer que só brasileiro paga singe, vou contar um dos grandes de um autêntico francês imigrante em Québec. 

O lyonnais Olivier tinha acabado de desembarcar em pleno inverno québequense pra trabalhar como engenheiro na recém-inaugurada filial montréalaise de uma megaempresa francesa de design industrial. 

É óbvio que o idioma não seria um obstáculo pra ele, né? Dããããã

Bom, mas isso até contratarem Vincent para integrar a mesma equipe de Olivier.

Um detalhe: Vincent é “québécois pure laine de la Gaspé“.  

Vizinhos de bureau, foram apresentados logo no primeiro dia. No entanto, dada a sua timidez, Olivier pouco interagia. 

No correr dos primeiros meses, Vincent, que era responsável pelas compras e abastecimento do setor, falava muito ao telefone e, nessas conversas, repetia com frequência uma expressão corriqueira em Québec: « J’ai de la misère » 

No final do primeiro semestre, um bônus inesperado pingou na conta do Desjardins dos funcionários. A galera já queria marcar uma 5 à 7 na microbrasserie Archibald. Todos estavam mais sorridentes que banguela em dentista. Menos o nosso amigo francês. Circunspecto, nada disse.

Aproveitando um momento de calmaria no bureau do colega québequense, que, claro, era o cabeça da party, Olivier tomou coragem e bateu na porta do vizinho:

– Com licença, Vincent. Poderia falar contigo um minuto?

– Claro, entre aí, francês… falou sorrindo.

Com um ar de seriedade inabalável, Olivier pediu pra se sentar. 

Nitidamente constrangido, olhando para todos os lados como que pra ter a certeza de que ninguém os ouviria, no que era acompanhado pelo olhar do intrigado Vincent, disse quase que murmurando:

– Desculpe-me, mas como somos vizinhos de « bureau », acabo ouvindo algumas de suas jasettes.

– Ah, sem problemas, francês, estas salas só com divisórias tiram a nossa privacidade. Ainda bem que somos solteiros, né? …e largou uma gargalhada de assustar o palhaço do “It“, mas apenas ele achou engraçado.

Olivier continuou …

– … e não pude deixar de ouvi-lo falar de seus problemas financeiros…

– Ah, é? Todo mundo tem lá as suas hypothèques pra pagar, né não?… mas desta vez preferiu apenas dar um sorrisinho amarelo.

Olivier, deu uma levantada para ver se ninguém estava por perto, sentou-se, tirou então do bolso o seu cartão de débito e, condoído, emendou:

– Acabamos de receber este bônus, como moro sozinho e não tenho grandes despesas, queria te emprestar pra você sair de la misère!

Num primeiro momento, Vincent olhou para Olivier sem nada entender, mas não bastaram 5 segundos para ele explodir numa gargalhada misturada com tosse e alguns pets involuntários.

Se traduzirmos « j’ai de la misère » direto pro português, o resultado ficará assim: “Eu tenho miséria!”

Porém, em francês standard o sentido da expressão é: ‘tô na merda’, ‘tô no vermelho’, ‘tô endividado’, variando a entonação conforme aumente ou diminua o saldo negativo do devedor.

Quer dizer, o nosso chum francês tinha toda razão para estar preocupado com o miserável do Vincent. Só tem um porém: em québequês, « avoir de la misère » não tem nada a ver com estar endividado, mas tão-somente ter dificuldade com alguma coisa. Por exemplo: 

J’ai de la misère avec les filles.

J’ai de la misère à te croire.

Ils ont eu de la misère à le convaincre qu’il avait tort.

J’ai beaucoup de [la] misère avec le québécois.*

* Eventualmente, o ‘la’ é suprimido para dar mais fluidez a fala.

Ou seja, “misère” (miséria) nesta expressão, é sinônimo de dificuldade. 

A última vez que o nosso solidário e agora solitário cousin francês foi visto, estava criando abelhas africanas no interior do Uzbekistão.

E aí, já passou por algum mico de imigrante? Conte pra gente. Prometemos manter o anonimato. Basta escrever para bomdia@quebecemfoco.com. Quer entender as expressões utilizadas? Segue abaixo um minidicionário.

Sinônimos em…

PORTUGUÊS: ter dificuldade; achar difícil. Ex.: “tenho dificuldade em entender o québecois”.

FRANCÊS: avoar de la difficulté; avoir du mal ou avoir de la peine à faire quelque chose.

Minidicionário de québequês

5 à 7: É o nosso Happy Hour. 

Archibald: É uma microbrasserie muito conhecida em Québec. Tá roendo as unhas pra saber de onde vem o seu nome? No século XVIII, o norte da cidade de Quebec não tinha muita coisa além de árvores, árvores, árvores e árvores, lagos e montanhas. Ahhh… esqueci da neve… Lugarzinho pacato, né? 

Por volta de meados do século XIX, o escocês Archibald Simons deu a louca e foi morar por lá, onde fundou a sua família (também, né, sem TV e só mato em volta). Aliás até hoje a sua casa está preservada, na serra (rang) de Brûlé que faz parte da região que hoje é conhecida como Lac-Beauport.

Bureau: Dois sentidos: (1) escritório, (2) mesa de trabalho.

Chum: (1) amigo (ex.: mon chum de gars ou ma chum de fille), camarada, brother; (2) namorado(a) (mon chum, ma chum), marido/esposa ou companheiro(a). 

Cousin: Literalmente, significa primo (fem. cousine), mas também pode ser traduzido por ‘meu camarada, amigo, brother’.

Dããããã!: Interjeição que significa: “isso é evidente, seu retardado!”

Desjardins: Pra ser simples, é um banco estilo cooperativa (tipo o Sicredi, no Sul do Brasil). Pra ser mais completo, o “Mouvement des Caisses Desjardins” é um sistema de “caisses populares” (cooperativas) fundado em 6 de dezembro de 1900 por Alphonse Desjardins, em Lévis, em Québec, onde ainda está a sua sede social.

It: Aquele filme de terror com um palhaço.

Jasette: É um papo despretensioso, uma conversa. Tem também o verbo “jaser“, que quer dizer conversar, papear.

Lyonnais(e): Que vem de Lyon, cidade francesa que faz parte da região de Auvergne-Rhône-Alpes.

Microbrasserie: A etimologia aqui vai longe. “Brasserie” significa fábrica de cerveja (bière). “Brasser” vem do latim e tem dois significados: misturar, sacudir, mexer, bater com o “bras” (braço} ou “fabricar cerveja com cevada”. “Micro”, ah, essa eu pulo. Assim, microbrasserie é uma cervejaria artesanal onde a cerveja é feita no próprio local (“brasserie artisanale”)…. Resumindo, é nossa “microcervejaria artesanal”.

Obs.: Só não fale, ‘eu vou numa brassière‘ no lugar de ‘brasserie’. Não sabe o porquê? Brassière é sutiã (em QC se diz também ‘soutien-gorge‘). Concorda que vai pegar malzão? 

Montréalais(e): quem é da ou mora na cidade de Montréal.

Party: Anglicismo, significa festa (fête) e é usado por todo mundo em Québec.

Pet(s): Peido. “Péter” (lê-se “PT”), peidar. Quer um provérbio com “pet“? Toma: “Chantez à l’âne, il vous fera des pets.” Ou seja, “cante para o burro, que ele peidará”. Lindo isso, gente! Tá bom, significa: não faça favor a um ingrato que o que você vai receber será ingratidão. Ou, como o provérbio hebraico, “não jogue pérolas aos porcos”.

Québécois pure laine de la Gaspé:  A expressão “pure laine“, lã pura, indica alguém que é orginário de algum lugar. Por exemplo, Evandro Mesquita é um típico carioca (Il est um pure laine do Rio de Janeiro ou um carioca pure laine). Já “Gaspé” é o nome da maior cidade da região de “La Gaspésie-Îles-de-la-Madeleine”, no Québec.

Singe: “Primate à cerveau développé, dont le corps, sauf la face, est couvert de poils et dont les jambes sont plus longues que les bras.” (Antidote) E aí, matou? macaco, ora! E como você diria “pagar mico”:  se couvrir de ridicule; se donner le ridicule; se tourner em ridicule.

Provérbio com “singe”: “On n’apprend pas à un vieux singe à faire la grimace“. Traduzindo…’A gente não ensina um macaco velho a fazer uma careta’, melhor dizendo, ‘a gente não ensina o Padre a rezar missa’ ou ainda ‘a gente não ensina macaco velho.’

Uzbekistão (ou Usbequistão): É um país da Ásia Central que faz fronteiras com um monte de ‘istão’: Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão, Turcomenistão e Flamengão (não, não, isso é piada, tá?). Sua capital é Tashkent. Tashkent. O Uzbequistão foi incorporado ao Império Russo no século XIX e em 1924 tornou-se uma república da falecida União Soviética. Desde dezembro de 1991 é um país independente. 

Autor

  • Como diz a Mocidade, "sonhar não custa nada [e] o meu sonho é tão real..." Sou um resiliente imigrante commis pra toda obra. Não rir e não tomar sustos são meus maiores desafios. Se creio em algo? Sim, em você, ser humano. Defeitos? Só um, ser flamenguista. Não é defeito? Então sou a perfeição em forma de Fábio! Faça o bem, não importa como, quando, onde e a quem. Apenas faça o bem.

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1 comentário em “Micos de Imigrante: “Conversa doida da miséria”

  1. Adorei! ????????????????????????????
    Assim que eu pagar um mico, prometo que volto aqui pra contar.

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