Micos de Imigrante: Blonde

Micos de Imigrante: Blonde

08/11/2021 2 Por Fábio de Almeida dos Santos
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Adalberto imigrou pro Québec acompanhando a transferência profissional de sua esposa, Engenheira de Sistemas. Por ter feito doutorado na Bélgica, ela já mandava super bem no francês… já o seu distinto marido…

Mas antes mesmo de subirem no avião, pra não fazer muito feio, Adalberto resolveu comprar e estudar, ainda no Brasil, a versão ‘francês’ do Curso de Idiomas Globo. Não conhece, né? Gente ignorante. Olhe então aí embaixo uma foto:

Cursos de Idiomas Globo: francês

Claro, esta relíquia só achou num sebo sebento caindo aos pedações no centro do Rio.

Ah, e junto com o curso veio de brinde um toca-fitas. Vai dizer que também não sabe? Tá, olhe outra foto… haja paciência pra gente sem cultura!

Isso são toca-fitas, ou K7.

Não preciso nem dizer que a fita enrolava mais que político. Acabou aprendendo, por tabela, uma nova profissão: técnico em restauração e rebobinagem com caneta Bic de fitas K-7, com especialidade em TDK e Panasonic.

Finalmente, Québec, mais precisamente em Trois Rivières.

Mesmo cansados com a longa viagem pela Copa, foram fazer compras, pois logo no dia seguinte a esposa se apresentaria na Universidade.

Todo mundo sabe, pra aprender um novo idioma, qualquer um, você precisa de duas coisas: ser cara de pau pra falar e errar sem ficar com vontade de imigrar pra Marte de tanta vergonha e estar aberto aos novos desafios que vêm no pacote, como a cultura, os costumes, a música.

Este era o caso do nosso amigo. Não tinha tempo ruim pro danado.

Esposa: Amor, não compramos uma cerveja pra gente comemorar a nossa chegada sãos e salvos, né? Eu passo no mercado depois do trab…

Se achando o Mestre Jedi do Francês, redarguiu:

Adalberto: Nãnãninãnã…eu vou…

Esposa: …mas você mal sabe falar bon…

Adalberto: Assim você me ofende, né? Passei meses tomando antialérgico estudando o Idiomas Globo pra você falar isso?

Esposa: Tá, desculpe, não quis ofender…só queria ajudar…

Adalberto (semi ofendido): Tudo bem. Sou pau pra toda obra. Eu compro.

Beijos e ela sai.

Ele logo foi pra internet procurar onde compraria a tal cerveja, mas não entendia os endereços e Google Maps também não adiantaria, pois seu celular estava sem dados.

– Vou descer e dar uma olhada no quarteirão…sempre tem um mercadinho próximo.

Logo se deu conta que estavam morando numa vila, ou seja, nada em volta. Depois de ter se perdido umas 3 vezes e não ter passado por ninguém, além de idosos disputando corrida em carrinhos elétricos, voltou pra casa com ares de 7 a 1.

– Pô, maó vergonha ela chegar e eu ter que falar a verdade. Das duas uma, ou minto dizendo que estou com algum desarranjo intestinal ou mental (riu da própria piada Tiozão) ou saio de novo e vou procurar até achar.

Como não queria passar por cagão, lá foi o danado.

Por sorte, ao descer, viu um rapaz uniformizado limpando os vidros da entrada. Não pensou meia vez, pegou seu minidicionário que carregava como se fosse a Arca da Aliança e soltou:

Missiê, bomjûrrr, please, gê precisarrrr áxêterrrr cerveçaDonde gê pê áxêterrrr-la?

Preciso falar que o rapaz olhou pra ele como se estivesse diante de um mudo que falando pela primeira vez descobre ser fanho e gago?

Bonjour, pardon?

Não disse, né? Mas o minidicionário do abestado era inglês-francês e ele mal falava ambas as línguas. Pegou o livrinho e mostrou a palavra do que precisava:

– Ah, bièèèrrrre.

Yes, oui, isso, bièèèrrrre, imitou perfeitamente o sotaque do “trifluvien”

Xavier, nome que o Adalberto leu no crachá, disse algo incompreensível, na verdade só uma coisa ele entendeu:

– J℗℅∆∂JblondeJ÷∞µὠ𠀴𠀨𠀈

Blondi? E toca procurar no dicionário.

  • She had long blonde hair.
  • [En parlant de la couleur des cheveux et du poil] Qui est de la nuance la plus claire, proche du jaune d’or

– Loira, show, entendi, é uma gíria, o mexicano foi chamar uma colega dele, que é loira, pra me explicar, é certo que é isso.

Nota nº 1 do escritor: Alguém por aqui por um acaso disse que o Xavier era mexicano? Eu que tô escrevendo que não fui.

Não passou 1 minuto e Xavier me aparece com uma menina super simpática, mas morena e com traços asiáticos.

Sorridente, ela trazia um papel e uma caneta e foi desenhando como o abestado chegaria no tal mercadinho.

Bôcú mérrrrci, bôcú mérrrrci, Mádãmi é mutcho eduque, bôcú mérrrrci.

Ela apenas sorriu, um sorriso meio amarelado por não entender nada do que que o alienígena falava.

Adalberto, já a caminho do mercadinho, estava intrigado, afinal de contas a menina não tinha nada de loira. Putz, o pobre do mexicano deve ter sofrido muito quando atravessou a fronteira…tadinho, e ficou com problema de vista, sei lá!

“Épicerie Carrefour du Coin”.

– Eita, nem sabia que tinha Carrefour aqui. Pena que não trouxe o meu cartão de cliente VIP do Brasil. Certamente teria desconto.

Procura daqui, procura dali, pronto, achou o lugar das cervejas. Mas qual comprar?

Havia um rapaz que por sorte estava repondo alguns engradados e o destemido brazuca foi perguntar:

– Bomjûrrr, jõini garsson, please, gê wãnti comprar uma cerveça, cual? Tu poderrr êdêir-mi.

Nota nº 2 do escritor: Ele falou /jõini/, que significa amarelo, jaune, em francês, quando queria mesmo dizer, /jãn/, que é jovem, jeune, em francês). Pode continuar a leitura, só queria tirar o meu da reta.

O rapaz, embora bastante perdido, aparentemente entendia espanhol e pescou na frase de nosso poliglota amigo brazuca duas palavras-chave: comprar e cerveça. Sem perder tempo, começou a mostrar algumas marcas de cervejarias locais pro agora francófono brazuca:

On a des blondes à 5%, des rousses à 7% et des blanches, moins fortes, à 4,5%…

Adalberto, estarrecido com o que ouvira, olhando para os lados com medo de se ver implicado em algum tipo de ilegalidade, foi saindo rápido repetindo, quase que aos cochichos:

– Non, non, mérrrrci, gê ne quero… gê ne quero that…

Já na rua, andando rápido sem parar de olhar para trás:

– Que droga, quase me ferro nessa, vou fazer uma denúncia anônima pro Carrefour no Brasil, eles estão usando seu nome pra negociar mulheres aqui, e isso a luz do dia… Loira, 5 por CAD 100, brancas, 7 por CAD 100, uma tal de rússi, que deve ser russa… não dizem que é primeiro mundo? Isso é escravidão sexual…

Se você, caríssimo ou caríssima leitora, tem alguma história deste tipo pra contar, voilà, estamos aqui para ouvi-la e recontá-la. Dê o primeiro passo. Coragem! Prometemos que seu nome, endereço e NAS serão omitidos. Só não prometemos ficar sem rir, táokei? Veja outros micos de imigrante clicando aqui.

Agora, tudo isso merece uma bela explicação

Lembra da falsa “blonde” do Xavier que de loira não tinha nada?

Pois então, se você ouvir um québeco chamando uma québeca de « blonde » sem esta ser loira, não pense que ele é um daltônico hard ou que esqueceu de tomar o tarja preta matinal.

« Blonde », que também significa loira, em québequês tem um segundo sentido, o de namorada ou companheira e nesse caso a cor dos seus cabelos é o que menos importa. Até careca tá valendo.

No caso da cerveja (fra. s.f.: bière), é comum identifica-la segunda a sua ‘cor’ (fr.teinte, algo como matiz ou tintura) e isso não é uma especificidade do Québec. Assim, teremos:

  • Blanche (masc.: blanc)
  • Blonde (masc.: blond),
  • Ambrée (masc.: ambré)
  • Rousse (masc.: roux)
  • Brune (masc.: brun)
  • Noire (masc.: noir)

Evidentemente, esta é uma lista meramente ilustrativa.

Links interessantes

https://www.iga.net/fr/produits_a_decouvrir/biere_et_vin/le_petit_guide_de_la_biere

https://urbania.ca/article/jaime-la-biere

https://www.lcbo.com/content/lcbo/fr/pages/beer/beer-style-guide.html

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Lorsqu’on boit, on ne conduit pas! 

Se for beber, não dirija!

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Opération Nez rouge

A Opération Nez rouge é uma organização sem fins lucrativos (OBNL) cuja missão é promover um comportamento responsável para prevenir a condução de um veículo com as faculdades motoras e cognitivas reduzidas ou comprometidas (facultés affaiblies). A organização oferece um serviço de acompanhantes voluntários cuja arrecadação beneficia jovens e o esporte amador, bem como outras atividades de conscientização.

Autor

  • Como diz a Mocidade, "sonhar não custa nada [e] o meu sonho é tão real..." Sou um resiliente imigrante commis pra toda obra. Não rir e não tomar sustos são meus maiores desafios. Se creio em algo? Sim, em você, ser humano. Defeitos? Só um, ser flamenguista. Não é defeito? Então sou a perfeição em forma de Fábio! Faça o bem, não importa como, quando, onde e a quem. Apenas faça o bem.

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