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História

O início das relações franco-indígenas no Québec

A relação entre o Canadá e as Primeiras Nações nem sempre foi ruim. Conheça o início das relações franco-indígenas no Québec.

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Como vimos no artigo anterior, Québec foi fundada por Samuel de Champlain em 3 de julho de 1608. Logo no início da nova colônia, ocorre uma complô para assassinar Champlain. A tentativa fracassa e a nova colônia nasce.

Para garantir a boa saúde da recém criada colônia, Champlain sabia que teria que ser diplomático, principalmente com os indígenas da região. Anos antes, em 1603, Samuel havia feito alianças com as tribos Hurons (chamados de Wendat pelos franceses ou Hurões pelos Portugueses), Algonquin (Algonquinos em português) e Montagnais (atualmente chamados de Innus). Essas eram as tribos que viviam às margens do Rio Saint Laurent (São Lourenço) na época.

Os iroqueses, formados por diversos clãs, eram os grandes inimigos daquelas tribos. Aliás, diga-se de passagem, as guerras entre as primeiras nações eram terríveis, principalmente o que acontecia com os capturados. Era comum, de ambos os lados, escalpelar os inimigos e torturá-los das formas mais cruéis. Mas isso é um ótimo assunto para outro artigo, se é que podemos dizer ‘ótimo’ neste caso.

Em 1609 havia chegado a vez dos franceses cumprirem a sua parte na aliança. Assim, em 28 de junho daquele ano, Samuel de Champlain sai de Québec para ajudar seus aliados contra os iroqueses. Essa guerra ficou conhecida como Bataille du lac Champlain, ou Iroquois War, em inglês, ocorrendo ao longo do que hoje é o Champlain Lake, ou Lago Champlain (foi o vaidoso Champlain que deu seu nome ao lago), nos Estados Americanos de Vermont e de Nova York e em seu parte na Província do Québec, Canadá.

Derrota dos Iroqueses no Lago Champlain, em 1609. Samuel de Champlain atirando nos Iroqueses no Lago Champlain.

Na fatídica manhã de 30 de julho de 1609, ocorre o confronto. Champlain e dois de seus camaradas franceses ajudam os indígenas do Saint Laurent com suas armas modernas. Vários dos mais de 200 Iroqueses (da tribo Agniers) morrem e batem em retirada. Em 19 de junho de 1610, há mais um conflito. No seu livro, “Récits de voyages en Nouvelle France“, Samuel de Champlain relata: 

“Eu saí de Québec em 14 de junho para encontrar os Montagnais, Algonquins et Ochastaguins que deviam estar na entrada do rio dos Iroqueses. Como eu fui à 8 léguas1 de Québec, eu encontrei uma canoa, onde havia dois selvagens, um Algonquin e outro Montagnais, que me me suplicavam de ir o mais rápido possível me apresentar e que os Algonquins et Ochastaguins estariam esperando há dois dias [de viagem], com um número de 200 e outros 200 que ainda viriam pouco depois com Iroquet, um dos seus chefes”.

Récits de voyages en Nouvelle-France 1603-1632, Samuel de Champlain.

Champlain é levemente ferido, mas como ele próprio escreve: “meu machucado não me impedia de cumprir meu dever, bem como dos selvagens cumprirem o deles.” Segundo os seus relatos, quando os iroqueses ouviam os tiros, entravam em pânico e se atiravam no chão. Novamente os indígenas ao longo do Saint Laurent saem vitoriosos. A ajuda dos franceses nesses conflitos foi fundamental para a estabilidade e segurança da nova colônia nos primeiros anos.

Enquanto isso, em 14 de maio de 1610, o Rei Henri IV, da França, é assassinado. Ele era o principal patrono, por assim dizer, de Champlain. E pouco antes de ser morto, ele retira de Dugua de Mons o monopólio do comércio de peles (monopole des fourrures). Quem assume a regência é Marie des Médicis, para a qual pouco ou nada interessava a Nova França. Ou seja, a situação de Champlain e de Mons ficava indefinida.

As guerras entre hurões, montanheses e algonquinos contra os iroqueses perdurariam por décadas. Elas teriam grande influência na colonização europeia na América do Norte, mas não apenas a francesa, mas também a inglesa e a holandesa.

Porém, nem só para guerrear serviam as alianças. O seu principal objetivo, claro, era o comércio. Enquanto no Brasil franceses e portugueses negociavam com os nativos o corte do pau-brasil, no Québec os nativos vendiam aos europeus peles de animais, principalmente de castor, vendidas por um alto preço na europa.

Diferentemente dos ingleses e holandeses, os franceses não trocavam as peles por armas, pois apenas os nativos batizados na igreja católica poderiam receber uma com escambo. E isso geraria um grande problema no futuro. Enquanto os aliados indígenas dos franceses usavam “arco e flecha”, os iroqueses, aliados dos ingleses e holandeses, usavam AR-15 e AK-47. Brincadeira, claro. Se a coisa estava ruim para os franceses, pior ainda para os os hurões, algonquinos e montanheses.

Enquanto Québec era dirigida por Samuel de Champlain, os indígenas desenvolveram uma relação estreita com os franceses. Embora não fossem tratados 100% como iguais, não há relatos de escravização desses povos ou de maus-tratos autorizados pela colônia. Na verdade, há vários relatos de franceses que decidiam morar entre os indígenas. Aprendiam sua cultura, costumes, língua e jeito de viver.

No decorrer dos anos, Champlain iria ao socorro dos seus aliados nativos e vice-versa. A aliança era tal, que mais tarde, em 24 de maio de 1633, ele declararia ao chefe indígena Capitanal que um dia: “nossos filhos se casarão com vossas filhas e nós seremos um só povo.” Os nativos caíram na gargalhada. “Mas tudo bem”, disseram eles, “se um dia isso acontecer, nós seremos felizes.”

Fontes e Referências

Lacoursière, Jacques. 2013. Histoire Populaire du Québec. Québec : Editions du Septentrion, 2013. Vol. 1.

Les autochtones d’Amérique du Nord (notions avancées). Alloprof. Acesso em: 8 de janeiro de 2022. Disponível em: https://www.alloprof.qc.ca/fr/eleves/bv/histoire/les-autochtones-d-amerique-du-nord-notions-avanc-h1067.

Heidenreich, C.E. e Parker, Lewis. 2011. Hurons-Wendats | l’Encyclopédie Canadienne. The Canadian Encyclopedia. 4 de Janeiro de 2011. Acesso em 8 de janeiro de 2022. Disponível em: https://www.thecanadianencyclopedia.ca/fr/article/hurons.

Samuel de Champlain. Récits de Voyages en Nouvelle-France. Reeditado por Mathieu D’Avignon. 2018.

William é brasileiro, nascido na cidade de Feliz, no interior do Rio Grande do Sul. Mora em Québec desde 2019 e é um aficcionado por história. Com formação na área de tecnologia e de línguas antigas, é o apresentador do canal Québec em Foco no YouTube e também do Café com História do podcast Conexão Québec.

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