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Saúde & Bem-Estar

Homesickness – Saudades do lar, doce lar

Você sabe o que é homesickness, ou “saudade do lar”? Homesickness não é uma doença. Antes, é um momento ou período de readaptação. Saiba mais nesse artigo.

Pamella Callegari Claro

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em

Capa Homesickness

Durante esses quase sete anos morando longe de casa, vivenciei todos os tipos de sentimentos: Durante esses quase sete anos morando longe de casa, vivenciei todos os tipos de sentimentos: culpa, raiva, alegria, tristeza e o mais conhecido deles: a saudade. Mas até então, não havia experienciado um – o “Homesickenss“. Já ouviu falar dele? Pois é… pra dizer a verdade, nem eu conhecia.  

Mas antes de irmos além, duas observações:

  • Homesickness é uma expressão em inglês, ou seja, não tem gênero, mas como o texto foi desenvolvido em português, vou tratá-la como se fosse uma palavra masculina, combinado? Então será ‘O’ Homesickness.
  • O Homesickness não é uma doença ou um distúrbio de saúde mental, mas sim um momento ou período de readaptação.

O que é homesickness

A Wikipédia fala que o Homesickness (que poderíamos trivialmente traduzir como ‘doença por saudades de casa’) é uma perturbação que leva a uma angústia física ou emocional. Sua causa é devido a separação de uma pessoa de seu lar e/ou de seus entes queridos. Pois bem, tive o desprazer de ser apresentada a ele morando aqui na América do Norte, e por duas vezes (isso que eu me lembre).

Minha experiência

Quando fui para o Brasil no final de 2020, em meio a segunda onda da pandemia, fiquei lá por volta de um mês. Quando regressei ao Canadá, estava sem motivação para trabalhar, sair, comer, tomar banho e até me levantar da cama. Na época, ainda em home office, me sentia deprimida e triste, reclamona e com uma baixa energia; até minhas amigas sentiam essa minha nuvem sombria quando conversavam comigo, e isso mesmo por telefone.

Fiquei assim umas três semanas e confesso que estar em quarentena não ajudou em nada. Só depois, na quarta semana, que passei a me sentir melhor; a motivação foi reaparecendo aos poucos. Era como se eu estivesse num processo de readaptação à realidade daqui.

Segundo Emily Garnotta, os pacientes com homesickness geralmente relatam ter uma combinação de sintomas de angústia, de ansiedade e de dificuldade de concentração.

O que desencadeia o homesickness, ainda segundo Garnotta, é a mudança, temporária ou permanente, para uma nova região do país ou para o exterior. Mas isso também inclui, por exemplo, ir para um acampamento de verão ou até mesmo para uma faculdade que pode ser acompanhada da separação da sua casa, do seu lar. Como se vê, não é uma perturbação de adulto, podendo alcançar também crianças e adolescentes.

Em 2021, fui novamente para o Brasil passar as festas de fim de ano com a minha família e amigos e retornei ao Canadá um mês depois. Pensei comigo:

– Ah, homesickness, você não me pega mais. Já conheço bem a sua cara, viu?

Desta vez estaria preparada, afinal, estava noutro momento de vida, mais estável. Doce ilusão.

Bastou colocar os pés em casa, no caso a minha no Canadá, e me vi novamente triste e rabugenta. Mas diferentemente da primeira vez, nesta a motivação não me abandonou, conseguia realizar as atividades básicas e trabalhar, ainda que reclamando de tudo, de todos e o tempo todo. Era uma infelicidade inexplicável por ter retornado ao Canadá, que também era a minha ‘home‘.

O tempo – ele, como sempre – foi passando, passando e se encarregando de me readaptar à vida dita normal.

Homesickness vem de outros carnavais

Olhe que interessante. Este sentimento de vazio, de ruptura, de tristeza que decorre da separação de um lugar de conforto aparece descrita tanto nos livros do Êxodo, do Antigo Testamento, quanto no Salmo 137:1, que diz: “Perto dos rios da Babilônia, lá nos sentamos, sim, choramos, quando nos lembramos de Sião”.

Também na Odisséia, de Homero, a cena de abertura apresenta Atena discutindo com Zeus para trazer Odisseu para casa: “[ele está com] saudades de sua esposa e de sua volta para casa…”. Já o médico grego Hipócrates (460–377 a.C.) acreditava que o que chamamos de saudade era causada por um excesso de bile negra no sangue.

A “saudade” suíça que virou um problema de guerra

Há uns 200 anos, dizia-se que a nostalgia, a saudade, era uma “doença” tipicamente suíça causada pela “ranz des vaches“.

A palavra franco-suíça ‘ranz‘ significa “canção”, assim, “ranz des vaches” seria melodia das vacas. Calma, calma… não estou louca. Eu explico.

Tudo começa em 1688, quando o médico Johannes Hofer notou que alguns dos soldados que tratava apresentavam sintomas comuns: perda de memória, de apetite, falta de sono, febre, pulso irregular, fraqueza, dores de estômago e muita vontade de ir para casa. Em casos extremos, o quadro podia levar à morte.

Hofer também observou que estes soldados eram mercenários suíços que haviam deixado os seus ‘lares’ alpinos (a palavra ‘lar’ tem importância fundamental, não se confundindo com ‘casa’) para servir sobretudo aos reis da França.

O mais interessante era que ao regressaram para os seus ‘lares’, os soldados mandavam mensagens ao médico dizendo que, agora sim, se sentiam bem e o motivo, segundo eles, era o leite. Ou seja, eles teriam ficado doentes devido a diferença na alimentação.

Hofer chamou esta ‘doença’ de Heimweh, uma aglutinação das palavras alemães Heim, lar, e Weh, mal, ou seja, ‘mal’ ou ‘dor de lar’, traduzida para o francês como ‘mal‘ ou ‘nostalgie du pays’. Aliás, a palavra ‘nostalgie‘ foi criada para dar um ar mais ‘médico’ ao termo alemão original, sendo também uma composição das palavras latinas ‘Nost‘, volta ou retorno, e ‘Algie‘, dor, gerando o sentido de ‘dor do retorno ou da volta’.

Para Hofer, heimweh era uma espécie de doença psicológica caracterizada por um “pensamento obsessivo por seu país natal” que surgia após uma longa permanência no exterior.

Lembra da “ranz des vaches“, canção das vacas? Pois então, dizia-se que os soldados deserdavam os campos de batalha sempre que ouviam esta típica canção suíça que os fazia relembrar seu lar, sua terra natal. Tanto que se um deles fosse pego cantarolando, assoviando ou tocando a tal canção, era passível de ser condenado à pena de morte.

Até o famoso filósofo iluminista, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), escreveu em seu “Dictionnaire de la musique” um trecho fazendo referência à “Rans des vaches” (clique aqui para ver).

J’ai ajouté dans la même Planche le célèbre Rans-des-Vaches, cet Air si chéri des Suisses qu’il fut défendu sous peine de mort de le jouer dans leurs Troupes, parce qu’il faisoit fondre en larmes, déserter ou mourir ceux qui l’entendoient, tant il excitoit en eux l’ardent desir de revoir leur pays.

“Eu acrescentei no mesmo “Planche” a célebre “Ranz des Vaches”, essa melodia tão cara aos suíços que foi proibida de ser tocada em suas tropas, sob pena de morte, porque fazia os soldados se desfazerem em lágrimas, desertarem ou morrerem quando a ouvissem, tanto que despertava neles o desejo ardente de rever a sua pátria novamente.”

Dictionnaire de musique , par J.-J. Rousseau – Tradução Livre

A descrição da perturbação como um fenômeno localizado, pois afetava apenas os suíços, foi reavaliado, sobretudo com os grandes fluxos migratórios em toda a Europa. Quer dizer, a heimweh, a “nostalgie du pays” ou homesickness aparecia agora em várias regiões e épocas.

Voltando à minha experiência…

A escritora Susan J. Matt, no seu livro Homesickness: Uma História Americana, descreve experiências de homesickness em colonos, imigrantes, garimpeiros, soldados, exploradores e outros que passam um longo tempo distantes de casa. Ela relata que, inicialmente, o homesickness era entendido como uma lesão cerebral, mas atualmente é reconhecido como uma forma de psicopatologia que reflete a força do apego de uma pessoa ao seu lar, à sua cultura nativa e aos seus entes queridos, bem como à sua capacidade de regular as emoções e de se ajustar ao novo.

Apesar de ter ouvido falar sobre o homesickness, não me reconheci nesta situação. Até conversar com uma colega do trabalho. Ela então comentou que o que eu tive foi o famoso ‘homesickness’ e que é muito mais comum do que imaginamos. Diferente das pessoas que sentem a falta de casa quando viajam, no meu caso, senti a falta da minha ‘casa natal’, isto é, do meu lar, doce lar.

É importante destacar que, como mencionado no início do artigo, o homesickness não é um distúrbio de saúde mental. Seus sintomas vão reduzindo gradualmente com o passar do tempo e não é motivo de preocupação. Isso não significa que não devamos ficar atentos, sobretudo por apresentar algumas similaridades com outras patologias, como a depressão.

Podendo se agravar, se os sintomas persistirem ao ponto de afetar significativamente a sua vida, é essencial buscar o mais breve possível um profissional (médico ou psicólogo) para fazer um diagnóstico preciso e oferecer o tratamento adequado.

Pela minha vivência, diria que a melhor forma de lidar com o homesickness é equilibrar a sua capacidade de se manter conectado ao seu passado, enquanto se ajusta ao novo lugar, dando tempo ao tempo. É importante saber reconhecer os nossos sentimentos, mas sobretudo aprender a lidar com eles.

Várias fotos da Pam no Canadá em diversos lugares diferentes.

Agora que já sabe o que é homesickness, consegue identificar se você já se viu nessa situação? Ao retornar de suas férias de ‘casa’, você também leva um tempo para se readaptar a rotina?

Conte pra gente nos comentários. Será um prazer ler a sua história.

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Fontes e Referências

Sou uma Psicóloga viajante, imigrante no Polo Norte Meu propósito? Ajudar outros imigrantes a manter a saúde mental longe de casa! Sonhos? Embrenhar-me mundo e culturas afora. Defeitos? Se nem a Psicologia é perfeita, Claro que eu também não sou. Mas tenho muitas qualidades, viu? Meu lema, ou dilema, de vida? Viva o Agora! Que tal um 'papo cabeça' degustando um café quentinho? É por minha conta!

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