24 de Junho e a Festa Nacional de Québec

24 de Junho e a Festa Nacional de Québec

21/06/2021 0 Por Fábio de Almeida dos Santos
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Desde 1925 o dia 24 de junho é feriado em Québec. A Fête Nationale ou Saint-Jean Baptiste é um dos maiores feriados em Québec. Como tudo iniciou? Conheça a história da popular festa Québecois.

Que maravilha, é dia de festa, da Fête Nationale du Québec.  E antes que você pergunte, sim, é feriado geral na Belle Province, e isso desde 1925, quando foi oficialmente reconhecido pela Assembleia Legislativa do Quebec.  E claro, todo mundo vai pra rua comemorar. É carrinho de bebê pra lá, criança correndo pra cá…parques cheios, fogueiras no final do dia, fogos de artifício… Mas verdade seja dita, se você sair perguntando o porquê daquela festa, pode acreditar em mim, a maioria esmagadora não vai passar da resposta óbvia:  

– C’est La Saint-Jean Baptiste, moron!  

E alguns ainda vão mais longe: 

– On fête l’indépendance du Québec. 

Mal comparando, é a mesma coisa que você perguntar pra um brasileiro que tá aproveitando o feriadão de 7 de setembro no litoral carioca, qual a origem daquele feriado.  Calma, calma, eu tô me referindo ao brasileiro mediano, não a você, dileto leitor, exuberante e transbordante em sua sapiência fluorescente, que com certeza sabe até nas vírgulas o enredo da nossa independência.  

Porém, é possível que você ainda desconheça a história da Festa do Québec. Então, pra ajudá-lo a sair pra “bebemorar” La Saint-Jean Baptiste devidamente nutrido de conhecimento histórico, preparei este artigo especialmente para anabolizar os seus já hipertrofiados neurônios cerebrais. Ahhh…. e se quiser ouvir o podcast que fizemos sobre o assunto, é só procurar pelo balado Conexão Québec no seu agregador favorito. Ou clique no player abaixo para ouvir.

Podcast Conexão Québec. Episódio: 24 de junho – Fête Nationale du Québec

Onde tudo começou 

As origens da festa remontam à antigas tradições pagãs que comemoravam o período do ano onde a posição aparente do Sol, visto da Terra, atinge seu extremo sul ou norte de acordo com o plano do equador celestial ou terrestre. Quer entender mais de astronomia? Então procure o artigo na Wikipédia sobre o solstício.

Pra resumir, é quando os dias são mais longos, ou seja, com mais claridade. Em geral, o dia TOP dos TOP é 21 de junho, no Hemisfério Norte, e o 21 de dezembro, no Hemisfério Sul, cada qual marcando o início do verão no seu respectivo quadrado. 

Quer dizer, enquanto tem sol, luz, claridade, energia, partiu rua pra comemorar. E esta tradição festiva acabou desembarcando na Nouvelle France lá por 1646.  

Naquela época, o Canadá era uma colônia da França. A França era católica. Isso quer dizer que a Igreja também tinha uma enorme influência por aqui. Então o bispo de Saint-Vallier, Monsenhor Jean-Baptiste de La Croix, em 1694, decidiu transformar aquela festa pagã num feriado voltado à devoção. 

Você deve estar mais perdido que cego em tiroteio.  

– Eu li certo? Bispo…Devoção… O que isso tem a ver com uma festa pagã, afinal?  Eu explico.  

Como dito anteriormente, o solstício de verão, que caia no 21 de junho, era uma festa pagã. Já no dia 24 de junho, pela tradição católico-cristã, comemorava-se o nascimento do profeta Jean Baptiste ou João Batista para os lusófonos. O que a igreja faria? Proibiria? Até tentaram fazer isso no início mas… a gente sabe, proibir por proibir quase nunca funciona, pois acaba atiçando ainda mais a curiosidade das pessoas. O que fazer? Simples, associar qualquer evento nas proximidades do dia 24 de junho às tradicionais festividades pelo nascimento do Profeta e Santo da Igreja Católica, João Batista. Agora sim, os problemas acabaram! 

O tempo passa, o tempo voa e a festa de Saint-Jean Baptiste continua numa boa, sendo comemorada inclusive após a conquête, entre 1759-1760, onde os franceses, católicos, foram defenestrados pelos britânicos anglicanos, na Bataille des Plaines d’Abraham

Somente em 1834, ou seja, 140 anos depois que o Monsenhor de Saint-Vallier decretara a Fête de Saint-Jean Baptiste (Festa de São João Batista) como uma homenagem devocional ao profeta, que começou a ganhar ares e conotação de festa política, que conserva até os dias de hoje. 

La Société « Aide-toi, le ciel t’aidera » 

Para explicar esta transformação de uma festa eminentemente religiosa para uma com um colorido político, precisamos falar de uma sociedade chamada de “Société Aide-toi, le ciel t’aidera” e de seu idealizador, Ludger Duvernay.

Duvernay, era o editor do jornal La Minerve, uma importante publicação do Baixo Canadá e voz ativa no Parti Patriote (ouça nosso episódio hors série sobre as Rebeliões dos Patriotas ou leia nosso artigo especial), juntamente com George-Étienne Cartier e Louis-Victor Sicotte, ambos estudantes de direito, fundam, em 8 de março de 1834, em Montréal, a Société Aide-toi, Le ciel t’aidera, que posteriormente dará nascimento à Société Saint-Jean-Baptiste, a mais antiga associação patriótica do Canadá. 

Olhe que interessante, este nome, Aide-toi, Le ciel t’aidera, na verdade era o nome de uma sociedade secreta, clandestina e revolucionária fundada na França em agosto de 1827. Ela contribuiu para a chamada Revolution de Juillet, de 1830, também na França. Eita lugarzinho pra ter revolução, não?  

Aide-toi et le ciel t’aidera tinha como principal objetivo dar aos franco-canadenses um dia para chamar de seu, como feriado nacional, a semelhança do que os irlandeses de Montréal já vinham fazendo desde 1824, com a festa de Saint-Patrick (São Patrício). 

Claro que festa boa é com música, fartura de comes e bebes. Assim, para o que seria o primeiro bota-fora festejando La Saint-Jean-Baptiste, Duvernay convidou la crème de la crème dos influenciadores da época.  A “rave” foi marcada para o dia 24 de junho de 1834, na casa do advogado John MacDonnell.  

Dentre os cerca de sessenta privilegiados, entre francófonos e anglófonos, estava o deputado Louis-Hippolyte LaFontaine, George-Étienne Cartier, futuro advogado e primeiro-ministro do Canada Unido, o prefeito de Montreal, Jacques Viger, e o médico patriota, Dr. Edmund O’Callaghan.

Já na madruga, os bons vivants levantaram um brinde para os independentes Estados Unidos da América, para todos os reformistas, do Baixo e Alto Canadá e da Irlanda, e para as 92 Résolutions du Bas Canada.

No entanto, com o MMA que rolou nas Révolutions des Patriotes, de 1837-1838 e com os consequentes mandados de prisão dos patriotas restantes, Duvernay meteu o pé do Canadá. Apenas em 1842 que ele resolve voltar e com a memória ainda fresca da festança de junho de 1834, Duvernay contrata o melhor self-service da cidade para reviver as celebrações de La Saint-Jean-Baptiste.  

Pra ele, os canadenses franceses deviam se orgulhar de sua história e se unir mais do que nunca. Discurso tipicamente político, né, mas contagiante, não dá pra negar.  

Neste segundo banquete, o trio Durvenay-Carier-Viger, entoa a canção patriótica “Ô Canada, mon pays, mes amours!”, composta por ninguém menos do que o João Gilberto da Nouvelle France, George-Étienne Cartier. Além desta, cantam também a popular “Vive la Canadienne“. 

O primeiro desfile e o hino do Canadá

Primeiro Desfile da festa de Saint-Jean-Baptiste em Montréal. 24 de junho de 1843. Par Henry Sandham — Esta imagem está disponível no Museu McCord com o número de registro M979.87.15A. Domínio Público: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7115912

Em 9 de junho de 1843, Duvernay cria a Association Saint-Jean-Baptiste de Montréal e já no dia 24 de junho o bloco da associação vai para a rua pro seu primeiro desfile na Sapucaí de Montréal, tradição que perdura até os dias de hoje. 

Além disso, foi durante as comemorações de Saint-Jean, na cidade de Quebec, que, em 1880 o hino “Ô Canadá” foi cantado pela primeira vez. 100 anos depois, em 1980, ele torna-se o hino oficial do país. Quer ouvir o hino? É só clicar aqui.

Durante as décadas de 1960 e 1970, a festa de Saint-Jean-Baptiste afastou-se de seu caráter religioso e adotou uma missão mais cultural, artística e unificadora.  

O festival passou a ser um momento de mobilização nacional, servindo como plataforma para artistas e políticos.  

Desfile em Carro Alegórico na Festa de Saint-Jean-Baptiste em Montréal. 24 de junho de 1924. Par Edgar Gariépy — Musée national des beaux-arts du Québec, Domaine public, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=91518369.

Em 1975, Gilles Vigneault canta ali, pela primeira vez, a sua canção “Gens du pays” (ouça a canção aqui), em homenagem aos quebequenses. Caiu imediatamente nas graças e boca do povo, passando a ocupar lugar central nas comemorações da Saint-Jean e na cultura do Quebec. 

Dia Nacional do Quebec 

Em 24 de junho de 1977, René Lévesque, então primeiro-ministro do Québec, elege La Saint-Jean como o Dia Nacional do Quebec, retirando definitivamente seu viés religioso.  

Várias comunidades francófonas fora do Quebec também celebram Saint-Jean-Baptiste, sendo, por exemplo, o apogeu do Festival franco-ontariano que acontece todos os anos em Ottawa, bem como na Acadie e em várias comunidades francófonas de Manitoba.  

Diversas associações francófonas na Colúmbia Britânica também organizam festividades em torno de La Saint-Jean-Baptiste. Mesmo no exterior, as várias delegações de Quebec a celebram.

Imagem de Divulgação da Fête Nationale.

E aí? Gostou de saber sobre essa festa popular do Québec? Compartilhe o artigo com outros e deixei aqui seus comentários. Até o próximo artigo!

Fontes e Referências

  • Imagem da Capa: Par Montrealais — Travail personnel, CC BY-SA 2.5. https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=951565
  • L’histoire du Québec pour les nuls. Autor: Éric Bédard. Editions First. Edição 2018.
  • Les anciens Canadiens. Autor: Philippe Aubert de Gaspé. Éditions Bibliothèque Québécoise. Edição: 1994
  • Wikipedia. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/F%C3%AAte_nationale_du_Qu%C3%A9bec. Acesso: 2021/06/17.
  • The Canadian Encyclopedia. Disponível em: https://www.thecanadianencyclopedia.ca/fr/article/la-fete-nationale-du-quebec-fete-de-la-saint-jean. Acesso: 2021-06
  • Loi sur la Fête du Québec. Disponível em: http://legisquebec.gouv.qc.ca/fr/showdoc/cs/f-1.1 Acesso: 2021/06/15

Autor

  • Como diz a Mocidade, "sonhar não custa nada [e] o meu sonho é tão real..." Sou um resiliente imigrante commis pra toda obra. Não rir e não tomar sustos são meus maiores desafios. Se creio em algo? Sim, em você, ser humano. Defeitos? Só um, ser flamenguista. Não é defeito? Então sou a perfeição em forma de Fábio! Faça o bem, não importa como, quando, onde e a quem. Apenas faça o bem.

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