Síndrome do Regresso

Síndrome do Regresso

22/11/2021 5 Por Pamella Callegari Claro
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Recomeçar a vida em outro país, seja temporária ou permanentemente, exige ter não só a coragem de sair da segurança e do conforto do seu círculo familiar, profissional e de amizades, como também a resiliência, a paciência e a flexibilidade para se adaptar ao desconhecido, tendo que construir praticamente do zero toda uma rede de apoio e de contatos.

Porém, depois de um certo período e já adaptado ao novo lugar, chega a hora de voltar para casa. (Re)despedir-se. Mas agora, algo parece fora do lugar, como se você estivesse num túnel do tempo, tendo que se reencontrar num quotidiano que ficou no passado, no seu país de origem.

Claro, existe toda a euforia de rever a família, os amigos, de sentir como se nunca tivesse saído do seu “ninho”, as cores, os lugares, as árvores, os cheiros da infância. Contudo, embora tudo possa parecer cor de rosa, definitivamente este não é um processo fácil, simples ou rápido.

O alento do “lar, doce lar” logo cede seu encanto a um vazio que de tão denso parece tangível, numa mistura de tristeza e de revolta que sorrateiramente vão, dia após dia, acinzentando a nossa vida.

Esse estado de “depressão pós-volta para casa” tem nome próprio: Síndrome do regresso ou Jet leg espiritual.

Origem do termo “Síndrome do Regresso”

Foi o neuropsiquiatra brasileiro Dr. Décio Nakagawa, nascido no interior de São Paulo e filho de japoneses, quem cunhou a expressão “Síndrome do Regresso”. Morador do bairro da Liberdade, por 15 anos atendeu muitos brasileiros decasségui* que regressavam ao Brasil após uma temporada de trabalho em fábricas japonesas.

Observando o seu comportamento, o Dr. Nakagawa identificou características que se repetiam. De acordo com os seus estudos, a adaptação de uma pessoa a uma nova cultura pode levar, em média, seis meses; no entanto, precisará de dois anos para se readaptar ao seu próprio país.

Apesar de Dr. Nakagawa não ter publicado nenhum artigo científico sobre essa síndrome, seus pacientes tornaram seu trabalho reconhecido fora da comunidade japonesa.

Por que a Síndrome do regresso acontece?

Quando uma pessoa deixa o seu país para viver no exterior, ela inevitavelmente passará por grandes mudanças que variam em tempo e intensidade e de uma pessoa para outra.

Distante geograficamente de suas raízes afetivas originárias, ela se vê diante de um quotidiano no qual precisa aprender a se virar sozinha e autonomamente. Assim, pouco a pouco, vai absorvendo e apreendendo comportamentos e valores atrelados à cultura do país de acolhimento. O imigrante cria uma nova base para a sua vida e nela, agora, se sente pertencido.

No entanto, essa transformação não é tão evidente quanto parece, sendo percebida apenas no contraste percebido ao desembarcar no seu país de origem. O ex-imigrante quer se sentir em casa, mas simplesmente não consegue.

Este ‘voltar’ exige uma reacomodação, um reajuste entre dois universos de valores nem sempre conciliáveis. O regresso é muito mais complexo e doloroso do que a chegada num novo país, pois neste tudo é inédito, tudo é descoberta, tudo é história ainda por contar.

Quais os sintomas da Síndrome do Regresso?

Os sintomas mais comuns, conforme descritos por Nakagawa, são os seguintes:

  • Sentir-se deslocado, como se não pertencesse mais àquele lugar;
  • Tédio pela falta de novidades;
  • Saudade de fazer novos amigos;
  • Sensação de estranhamento, de não saber exatamente quem é após tanto tempo morando no exterior.

É como dizem: “quando você sai do país, você nunca mais volta o mesmo!” E é muito importante estar preparado para esse retorno, pois existe a ilusão de que não é preciso se adaptar ao lugar de onde se veio, mas esta é uma percepção equivocada, uma armadilha que te pega desprevenido, ainda no aeroporto e nos abraços apertados.

Como amenizar os sentimentos da Síndrome do Regresso?

Assim como quando nos mudamos para um país desconhecido é necessário ser paciente consigo mesmo, tenha em mente que você está experienciando uma nova realidade e que retornar não significa andar para trás, na direção do seu passado.

Procure “enxergar” tudo aquilo que você não pode ver enquanto esteve fora; lembre-se das saudades que sentiu e procure “matá-las” agora.

Claro, não existe uma fórmula mágica para uma readaptação bem-sucedida, mas algumas atitudes podem facilitá-la: 

  • Voltar não quer dizer ter o mesmo estilo de vida que tinha antes de mudar para o exterior. Permita-se explorar.
  • Nada como cultivar as amizades. Refaça laços e contatos com os amigos que ficaram no seu país.
  • Já pensou em recomeçar em uma nova cidade?
  • Que tal buscar um trabalho totalmente diferente daquele que fazia antes de partir?
  • Conheça novos lugares, viaje, redescubra o seu próprio país.

E, mais importante que tudo, não queira buscar culpados nem se culpe por aquilo que você não pode controlar. Parafraseando Lya Luft, “a vida é feita de ‘perdas e ganhos'”. Concentre-se, então, nos ganhos.

Tudo isso pode te ajudar nesse processo de readaptação.

Fontes e Referências

* A palavra japonesa dekasegi (出 稼 ぎ) é traduzida aproximadamente como “trabalhar fora de casa”.

Autor

  • Sou uma Psicóloga viajante, imigrante no Polo Norte. Meu propósito? Ajudar outros imigrantes a manter a saúde mental longe de casa! Sonhos? Embrenhar-me mundo e culturas afora. Defeitos? Se nem a Psicologia é perfeita, claro que eu também não sou. Mas tenho muitas qualidades, viu? Meu lema, ou dilema, de vida? Viva o Agora! Que tal um 'papo cabeça' degustando um café quentinho? É por minha conta!

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